8. ARTES E ESPETCULOS 14.11.12

1. CINEMA  MAIS ESTRANHO QUE A FICO
2. LIVROS  TUDO PELO SOCIAL
3. LIVROS  SEM MEDO DE QUEBAR MITOS
4. LIVROS  COISA DE MACHO
5. BLU-RAY  CONTRADIO RASTA
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  QUEM PERDE SAI DA FRENTE

1. CINEMA  MAIS ESTRANHO QUE A FICO
Em Argo, seu terceiro e timo filme na direo, Ben Affleck trata de um episdio que s no  inacreditvel porque aconteceu de fato.
ISABELA BOSCOV

     Em meados da dcada passada, Ben Affleck se rendeu s evidncias. Percebeu que ficaria eternizado como o ator de queixo duro de Armageddon e Pearl Harbor, e como a figura de troa dos tabloides que circulava por Los Angeles apalpando o derrire da namorada Jennifer Lopez, se no tomasse uma atitude para, como disse ele  revista Time, alinhar a pessoa que sou com o trabalho que fao. O realinhamento foi iniciado em 2007, com Medo da Verdade, prosseguiu de forma muito bem-sucedida em 2010, com Atrao Perigosa, e culmina agora com Argo (Estados Unidos, 2012), j em cartaz no pas: depois de ganhar um Oscar de roteiro com o amigo Matt Damon em 1998 por Gnio Indomvel, e de ento descer a paroxismos de ridculo pessoal e profissional, Affleck se casou com outra Jennifer, muito mais discreta e respeitvel  a atriz Jennifer Garner , teve com ela trs filhos e reconstruiu em boa medida sua carreira de ator. E, este o detalhe mais interessante, tornou-se um diretor cada vez mais hbil, e mais respeitado. Com Argo,  desde j candidato informal a vrias indicaes ao Oscar. Amparado pelo prestgio e por bilheterias slidas,  objeto de tanta f na Warner que tem sido o primeiro a receber os melhores roteiros que o estdio tem sob sua considerao.
     Como o do prprio Argo, que o roteirista Chris Terrio escreveu a partir de arquivos tornados pblicos em 1997 e com base em uma srie de conversas com um ex-agente da CIA que esteve no centro de um episdio inacreditvel  no sentido bsico da palavra. Em novembro de 1979, quando militantes revolucionrios invadiram a Embaixada dos Estados Unidos em Teer, aps semanas de cerco em protesto ao abrigo que o pas dera ao x deposto Reza Pahlevi, 52 funcionrios foram feitos refns durante 444 dias, numa das mais graves crises diplomticas da histria americana (e numa das mais sensacionais recriaes de um episdio verdico no cinema). Outros seis funcionrios, porm, conseguiram escapar sem que ningum desse por isso, e foram bater  casa do embaixador canadense. Cada dia a mais que permaneciam ali, no entanto, agravava o risco de que fossem todos descobertos e postos diante de um peloto de fuzilamento.
     Entra em cena Antonio, ou Tony, Mendez, desde a dcada de 60 ligado  CIA e especialista em exfiltrations  a arte de suprimir espies, colaboradores e dissidentes de reas fechadas. Nos seus anos de atividade at ento, Mendez retirara um sem-nmero de indivduos de trs da Cortina de Ferro. Dada a volatilidade do quadro no Ir, ele props aquilo que, no filme, descreve como a melhor das ideias ruins. Mendez posaria de produtor de cinema canadense, em Teer com sua equipe (os seis fugitivos, devidamente munidos de documentao fornecida pelo Canad e aprovada na primeira sesso secreta do Parlamento desde a II Guerra) a fim de buscar locaes para uma certa fico cientfica batizada de Argo  como o navio em que, na mitologia grega, Jaso vai buscar o Velo de Ouro. (O prprio Mendez conta a histria no livro homnimo, que est sendo lanado aqui pela Intrnseca.)
     Canadenses so objeto de simpatia mundo afora, o que amenizaria o cerco ao grupo de estrangeiros. E  perfeitamente plausvel que em Hollywood haja gente to alheia ao que se passa no mundo que cogitaria visitar o Ir no auge da revoluo islmica. A fim de vedar as brechas do plano, Mendez contactou amigos seus em Hollywood para formar uma produtora legtima, a Studio Six, alm de comprar um roteiro existente, desenhar storyboards, bolar currculos falsos para os refugiados e dar festas com a cobertura do jornal especializado Variery. Se vou fazer um filme de mentira, pode ter certeza de que ele vai ser um sucesso, mesmo que tambm de mentira, ironiza o produtor Lester Siegel (na verdade, o especialista em efeitos Bob Sidell), que entra na dana junto com o artista de maquiagem John Chambers, oscarizado por seu trabalho em O Planeta dos Macacos. Siegel e Chambers, interpretados com humor vvido por Alan Arkin e John Goodman, so figuras tpicas de uma dcada que Affleck, alm de recriar, homenageia: no tratamento da pelcula, no desadorno da encenao e no tom mordaz, Argo se inspira naquele cinema dos anos 70 que, a exemplo de filmes como Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas, batia forte, e entretinha muito.
     J o desempenho do prprio Affleck como Tony Mendez  de discrio contumaz. De talentos menos notveis como ator que como diretor, ele aqui, da mesma forma que em Atrao Perigosa, deixa os papis mais suculentos para o restante do elenco e, acertadamente, escolhe o personagem cuja habilidade profissional  nunca chamar ateno para si. Meu trabalho era ser invisvel. Espies de verdade no usam armas nem explodem prdios, como James Bond, porque depois no poderiam entrar l e pegar mais informaes, disse a VEJA Mendez. (Ou seja l quem ele for: na entrevista ao editor Duda Teixeira, o agente se recusou a sequer confirmar que esse fosse seu nome verdadeiro.) Essa inescrutabilidade do protagonista serve muito bem  estrutura robusta de Argo: embora Affleck e o roteirista Chris Terrio tenham enfeitado consideravelmente os fatos no ltimo ato do filme em prol do suspense que se acirra at quase o intolervel, nos dias que transcorreram desde a entrada de Mendez em Teer, em 25 de janeiro de 1980, at o desfecho de sua operao, o agente viveu momentos de medo genuno. Quando a fisionomia de Mendez comea a trair sinais de pnico, portanto, a situao em que ele e os seis refugiados se encontram  palpvel, em todo o seu risco e precariedade, para a plateia.
     Enquanto isso, em Hollywood, os telefones da Studio Six no paravam de tocar: eram diretores e produtores que tentavam vender seus projetos, certos de que uma companhia fundada sobre um sucesso potencial como Argo s poderia ter um futuro prspero. At Steven Spielberg mandou um roteiro para a Studio Six. Em nome da plausibilidade da fachada criada pela CIA, os interessados eram todos atendidos ou recebidos no escritrio que Michael Douglas deixara vago ao concluir Sndrome da China. E isso, por mais estranho que parea, no  fico. Foi fato. 

SE A HISTRIA  BOA, ELA VENDE INGRESSOS
Ben Affleck falou a VEJA sobre as implicaes polticas de um filme como Argo e sobre os prs e os contras de dirigir a si mesmo.

Atrao Perigosa chegou perto dos 100 milhes de dlares nos Estados Unidos, e Argo est no caminho de faz-lo. Mas diz o senso comum que filmes para maiores de 18, com temas duros ou difceis, espantam o pblico. H uma lio a ser tirada da? 
Tirar concluses, em Hollywood,  um negcio arriscado. Mas v l: como j se sabia, h sim uma audincia que aprecia filmes adultos. Com Argo, pus de lado as consideraes comerciais apriorsticas e tentei trabalhar sob a crena, alis bem antiga, de que, se a histria  boa, ela vende ingressos. Ainda que no tantos quanto um filme de ao.

Seus filmes como diretor, porm, tm um elemento forte de ao ou suspense.  uma isca para a plateia? 
De certa forma. Se voc quer que o pblico fique com seu filme, tem de sustentar o interesse dele. Mas quero acreditar que a ao e o suspense nos meus filmes no so elementos enxertados na trama, e sim decorrncia natural e inevitvel dela. Em Argo, no centro de tudo est uma questo elementar: o risco real de vida.

Voc cogitou filmar em Teer? 
Eu tinha a ambio de rodar ao menos as cenas mais essenciais em Teer. E, sim, teria sido possvel ir
 exceto pelo fato de que eu no teria controle sobre o uso poltico a que me prestaria. Talvez minha simples presena l pudesse ser tomada como um endosso do regime. Tentamos contactar cineastas iranianos para que eles rodassem certos trechos para ns, mas compreensivelmente ningum se disps a arriscar assim o prprio pescoo. O que fizemos, ento, foi tentar nos ater o mais fielmente possvel s imagens reais da invaso, por exemplo. Que so mais poderosas do que qualquer coisa que eu poderia inventar.

Argo tem uma constatao poltica clara a fazer: apoiar chefes de estado convenientes do ponto de vista poltico mas moralmente objetveis trar, em algum momento, consequncias incontrolveis. 
Constatao  a palavra certa: no me sinto no direito de dizer  plateia o que ela deve achar certo ou errado, mas creio que  minha incumbncia trazer este ou aquele assunto  luz. No caso, a questo : vale a pena fazer negcio com ditadores, tiranos ou corruptos simplesmente porque eles esto do nosso lado ou servem aos nossos interesses? Enquanto rodvamos Argo, Hosni Mubarak estava caindo no Egito depois de trinta anos no poder, nos quais, como o x Reza Pahlevi, conduzira uma poltica de ocidentalizao e boas relaes. Ou seja, sinto que a indagao continua to oportuna quanto no perodo da Guerra Fria, quando esse modelo de poltica externa americana se originou.

Voc j havia se dirigido em Ateno Perigosa, mas aqui seu papel  ainda maior Isso cria complicaes adicionais? 
Qualquer ator que dirija a si mesmo vai lhe dizer que s vezes  um desafio concentrar-se na emoo de uma cena quando tem de pensar tambm na geometria dela e coordenar uma equipe de 200 pessoas. Mas h vantagens. Aquelas catorze semanas de preparao do diretor antes do incio da filmagem so extremamente teis tambm para voc como ator; e a urgncia de desempenhar duas funes se traduz em mais vibrao ou mais naturalidade, conforme o caso, na maneira como a cena resulta. Mas a maior de todas as vantagens, de longe,  que, quando voc dirige a si mesmo, o ator e o diretor esto sempre de acordo.


2. LIVROS  TUDO PELO SOCIAL
Como o sof estofado, a moda e o banheiro ajudaram a nobreza francesa a promover uma revoluo radical  que ainda est em vigor  antes da Revoluo.
MARIO MENDES

     Uma das maiores revolues da histria moderna no aconteceu nas ruas nem foi resultado do levante de grupos descontentes com determinado sistema de governo ou regime poltico. Tampouco causou tumulto ou provocou derramamento de sangue. De maneira silenciosa, porm irresistvel, ela ocorreu na Frana, a partir do opulento interior do Palcio de Versalhes, entre os reinados de Lus XIV e Lus XV, de 1670 a 1765. Teve como maiores articuladoras duas amantes reais (alm da filha de uma delas) e, como bandeira suprema, um sof. No um sof qualquer, mas uma pea desenhada pelo mais influente decorador parisiense da primeira metade do sculo XVIII, Juste-Aurle Meissonnier, e exibida no Palcio das Tulherias, em 1735, no que pode ser considerado a primeira exposio de design de que se tem notcia.
     Com aparncia ao mesmo tempo rebuscada e confortvel, o sof de Meissonnier anunciava a existncia de novas maneiras de vestir, morar e viver. Por isso era a sntese perfeita de uma expresso que passou a ser largamente usada na Europa: lart de vivre. Ou seja, tudo o que os europeus consideravam que faltava em seus pases e que era apresentado de forma gloriosa na Frana, explica a historiadora americana Joan DeJean em O Sculo do Conforto (traduo de Catharina Epprecht: Civilizao Brasileira; 416 pginas; 62,90 reais). Especialista na cultura francesa dos sculos XVII e XVIII, Joan baseia sua histria da descoberta do casual e da criao do lar moderno na teoria de que os refinamentos domsticos  culinria, vesturio, arquitetura, decorao e higiene  abraados com tanto fervor pelos franceses nada mais eram que tradues prticas dos ideais iluministas. Sintomas da civilizao, por assim dizer.
     No princpio, existiam a suntuosidade e o luxo extravagante de Versalhes sob Lus XIV o Rei Sol. Tanto os sales destinados s audincias pblicas quanto os aposentos particulares eram caracterizados pela grandiloquncia: espaos amplos, com mobilirio disperso (e pouco convidativo ao repouso), onde os habitantes se moviam empertigados, vestidos com trajes elaborados que exigiam gestos largos e postura rgida. Havia pouca ou nenhuma privacidade, e muitas atividades ntimas eram realizadas  vista de todos. No raro, por exemplo, o monarca recebia interlocutores enquanto satisfazia suas necessidades sentado numa cadeira especialmente fabricada para tal funo.
     Famosa pela beleza, pelos caprichos que se espera de uma favorita do rei e por hbitos incomuns na corte (como o do banho regular), a marquesa de Montespan foi a primeira a se rebelar contra a tirania dos antigos costumes. Durante os 25 anos que viveu em Versalhes, promoveu mudanas de iluminao, decorao, arquitetura e vesturio, inaugurando uma categoria que teria seguidoras: a amante real que dita moda. A marquesa encomendou no s vestidos mais largos, para se movimentar com maior desembarao, como tambm cadeiras e sofs estofados nos quais pudesse sentar-se  vontade e at cruzar as pernas  uma afronta aos cortesos conservadores. Sua filha, Louise-Franoise, conhecida como Madame la Duchesse, introduziu os trajes para mulheres grvidas aparecerem em pblico (outro escndalo), enquanto a marquesa de Pompadour, amante de Lus XV, superou todas as ousadias ao mandar instalar um banheiro ao lado de seus aposentos  equipado com banheira e, luxo dos luxos, um vaso com descarga, to caro quanto uma joia.
     Segundo a autora, as comodidades modernas no eram privilgio apenas da realeza. Por toda a Paris, os nouveaux riches  uma classe de negociantes favorecidos por especulaes no mercado financeiro  alteravam a estrutura e a decorao de suas casas para abrigar elegantes salas de visita, dormitrios aconchegantes e eficazes sistemas de encanamento e aquecimento. Infelizmente, muitas dessas conquistas seriam abandonadas durante a Revoluo Francesa  a liberdade, a igualdade e a fraternidade se revelaram momentaneamente mais sedutoras que banheiros e mveis decorativos  e recuperadas apenas na metade do sculo XIX. Foi uma tima oportunidade para os vizinhos ingleses, que se encarregaram de patentear vrias das novidades desenvolvidas pelos franceses, passando a produzi-las em grande escala para suprir um mercado vido por elas no restante da Europa e nos Estados Unidos.
     Porm, apesar de lucrativa e de longo alcance, a apropriao inglesa das conquistas do Sculo do Conforto nunca atingiu a mesma grandeur que ainda hoje se pratica em Paris. Alm do charme local, falta-lhe aquele no sei qu intelectual que faz de um sof no apenas um simples mvel, mas o representante de uma mudana radical de hbitos e costumes. Aquele algo mais, enfim, conhecido como lari de vivre.

AO REPOUSO, COMPANHEIROS! 
O quadro A Leitura de Molire, de De Troy, de 1728, mostra uma reunio entre amigos segundo as novas regras do viver: informalidade, intimidade e, enfim, assentos confortveis.


3. LIVROS  SEM MEDO DE QUEBAR MITOS
O novo livro de um dos mais polmicos pensadores da educao no pas derruba verdades absolutas sobre a sala de aula e convoca os pais a agir em prol da qualidade.

     As escolas brasileiras permaneceram por sculos como uma caixa-preta inviolvel. No se sabia nem quantas delas havia no pas, muito menos o nvel do ensino que ofertavam. Esses tempos de escurido ficaram para trs desde que comeou a surgir no Brasil uma profuso de termmetros para medir a qualidade da educao  to numerosos que um cidado comum at se perde em meio a tantos indicadores. No se pode culpar a pobreza estatstica, portanto, pela falta de objetividade que ainda domina as discusses sobre as grandes questes da sala de aula. O problema  outro: boa parcela dos educadores prefere manter-se aferrada a bandeiras ideolgicas do passado a encarar os fatos mesmo quando eles contrariam suas velhas convices. O economista e articulista de VEJA Gustavo Ioschpe bate nessa tecla em seu novo livro, O que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Paralela: 250 pginas; 29,90 reais). O que o distingue da maioria dos que enveredam por essa rea  justamente a disposio de encarar os temas mais espinhosos sem se deixar cegar pelas certezas absolutas.
     No livro  que rene 34 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2012 Ioschpe se vale de um arsenal de pesquisas e de uma argumentao coerente para desconstruir um a um os mitos que pairam como uma camisa de fora sobre o ensino brasileiro. Um deles diz respeito  escassez de dinheiro para a educao  a raiz de nossos males, diria a esmagadora maioria. Pois os nmeros apresentados por Ioschpe demonstram que o Brasil despende para a sala de aula quase tanto quanto o clube dos pases mais desenvolvidos da OCDE (5,7% em relao ao PIB ns X 5,8% eles, se comparados os gastos pblicos). Mas s se o investimento subir ser possvel dar o grande salto de que precisamos, muitos ainda insistiriam. Talvez no saibam que, mesmo quando pases como China e Coreia do Sul se lanavam em sua exitosa corrida rumo  excelncia, no excederam os atuais gastos brasileiros. E, ainda que o Brasil destine mais dinheiro  rea, como est previsto, no h garantia de sucesso, alerta Ioschpe. Na ltima dcada, o pas foi vice-campeo em aumento de recursos para a educao, mas continuou na rabeira do ensino. Os reajustes no salrio dos professores tampouco se traduziram em avanos relevantes na sala de aula  nem mesmo nas escolas particulares. Um dos artigos expe um dado que derruba a crena de que elas so um osis de bom ensino: os alunos mais ricos do Brasil tm desempenho pior do que os mais pobres dos pases que esto no topo.
     No h nada de mirabolante nem de to dispendioso nas sadas sugeridas por Ioschpe. Trata-se, antes de tudo, de uma mudana de mentalidade  a comear pelos cursos de pedagogia, que preferem perder-se em teorias obsoletas a ensinar aos futuros mestres estratgias para a sala de aula. A experincia internacional indica que os caminhos para o xito acadmico passam pelo mais bsico: metas de aprendizado, dever de casa, meritocracia. Foi assim que a China alou seus alunos ao pdio da educao mundial, como mostra um captulo em que Ioschpe conta o que viu em sua investigao in loco. Aos 35 anos e tambm autor do livro A Ignorncia Custa um Mundo, que lhe rendeu o Prmio Jabuti, ele diz atrair mais detratores do que simpatizantes s suas ideias. No arrefece o tom cido que permeia seus artigos. Quero romper com a ideia de que est tudo bem na escola. Os pais tm o papel de cobrar avanos. 
MONICA WEINBERG


4. LIVROS  COISA DE MACHO
Um dos melhores autores brasileiros de sua gerao, Daniel Galera demonstra todo o seu vigor e tcnica na histria de um professor de educao fsica com um trgico destino familiar.

     Eis um romance que exala virilidade j no ttulo: Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras: 424 pginas; 39,50 reais). H uma fora decididamente masculina no novo romance de Daniel Galera: seu protagonista, um professor de educao fsica, gosta de videogame e cerveja, participa de competies de triatlo, envolve-se com pelo menos quatro mulheres e, quando necessrio, aguenta e distribui sopapos com estoicismo guerreiro. Sob o cotidiano aparentemente trivial desse instrutor de natao em uma localidade praiana fora da estao de turismo, h um substrato mtico que engloba as provaes fsicas tpicas do heri rstico. Mas no, esse no  um brutamontes: ele tem reservas imensas de delicadeza, devotada s mulheres por quem se apaixona (ou por quem sofre, uma vez abandonado), a um molequinho meio negligenciado pela famlia e  velha cachorra que herdou do pai suicida. Fissurado em atividade fsica mas pouco competitivo, inteligente mas desprovido de ambio ou afetao intelectual, esse heri  que no ganha nome na narrativa  ainda sofre de prosopagnosia, distrbio neurolgico raro que impede o reconhecimento de rostos. A construo desse personagem to direto nas suas complicaes  o maior, mas no o nico grande feito do quarto romance de Galera.
     Com 33 anos, o autor nasceu em So Paulo, mas foi criado e mora em Porto Alegre. O registro vivo e vibrante da fala coloquial gacha  uma de suas habilidades tcnicas mais notveis, como se observa tanto na naturalidade com que, no livro, se pede um xis corao em uma lanchonete quanto no estupendo dilogo em que o pai do protagonista anuncia que vai se matar. Depois da morte do pai, ele se muda de Porto Alegre para Garopaba, no litoral de Santa Catarina, em busca de informaes sobre seu av, um tipo brigo que teria sido assassinado por l nos anos 60. Pesa sobre a narrativa a sugesto trgica de que o neto seguir os passos violentos do av  o que em certo sentido se confirma na cena brutal que justifica o ttulo do livro. As trinta pginas que seguem da para o fim, alis, so terrivelmente anticlimticas. E h muitos outros trechos que mereceriam corte impiedoso: certa passagem em um templo budista, por exemplo, mostra que no s os personagens, mas tambm o autor no tm nada de relevante a dizer sobre budismo, e a apario felizmente fugaz de uma foca fofinha caberia melhor em um telefilme da Disney. Mas o vigor da narrativa se mantm. Coisa de macho. 
JERNIMO TEIXEIRA


5. BLU-RAY  CONTRADIO RASTA
O documentrio do cineasta escocs Kevin Macdonald expe o descompasso entre a mensagem pacifista do reggae de Bob Marley e as duvidosas causas polticas que o artista abraou.
SRGIO MARTINS

     Filho de uma jamaicana e de um ingls, Robert Nesta Marley (1945-1981) no tinha muito contato com a famlia paterna. Logo no incio da carreira musical, tentou estreitar os laos com os Marley residentes na Jamaica  que rechaaram o rapaz negro de tranas. Bob Marley responderia  desfeita na cano Cornerstone, na qual despreza os familiares e exalta a si prprio no mesmo lance: A pedra que o construtor recusou / Ser a pedra fundamental da construo. Em Marley (Estados Unidos/Inglaterra, 2012), documentrio do escocs Kevin Macdonald que chega nesta semana ao Brasil em DVD e Blu-ray (com um pssimo trabalho de legendagem, alis), parentes distantes do cantor e compositor so convidados a escutar essa msica. Um deles, emocionado, concorda com ela; foi seu parente menosprezado quem tornou o sobrenome Marley conhecido no mundo inteiro. E no s o sobrenome: Bob Marley foi o grande responsvel pela popularizao internacional de um gnero, o reggae, at ento restrito  sua ilha natal.
     Falando contra o preconceito, que conheceu de todos os lados (alguns negros o desprezavam por ser claro demais), Marley consagrou o reggae como uma espcie de msica de libertao e exaltao do orgulho afro. O cantor, no entanto, emprestou sua celebridade s piores ditaduras africanas. Em 1980, deu um show no Zimbbue, celebrando a independncia do pas e servindo como pea de propaganda para o ditador Robert Mugabe, que ainda hoje est no poder. Macdonald sabe uma coisa ou outra sobre ditadores africanos   o diretor de O ltimo Rei da Esccia, filme sobre Idi Amin Dada, dspota de Uganda de 1971 a 1979. Um dos grandes mritos do seu documentrio est no modo como expe as contradies do maior nome do reggae.
     Autor de hinos pacifistas como One Love, Marley, entretanto, conduzia sua carreira com prticas de gangue que aprendera na infncia em Trench Town, gueto de Kingston, capital jamaicana. O taco de beisebol era um dos meios de persuaso utilizados pelos amigos do cantor para convencer radialistas a executar suas canes. Em 1980, Marley descobriu que seu empresrio, Don Taylor, havia superfaturado o cach de um show no Gabo. Em represlia, deu-lhe uma surra que durou horas (no documentrio, Neville Garrick, amigo de Marley, conta que o empresrio foi at pendurado do lado de fora da janela de um hotel). Como muitos msicos jamaicanos, Marley abraou a filosofia rastafri, movimento espiritual to incompreensvel quanto o dialeto da ilha. Os rastas atribuam status divino ao imperador etope Hail Selassi (1892-1975), mais um rematado tirano na desastrada lista de dolos do compositor de No Woman No Cry (Ras era o ttulo de Selassi antes de se proclamar imperador, e Tafari era seu nome de nascimento.) Nos anos 60, quando visitou a Jamaica, Selassi foi saudado por uma multido de rastafris, com suas tranas quilomtricas. Em Marley, a mulher do cantor, Rita, mantm viva a chama da idolatria: diz que viu a marca dos pregos da cruz na palma das mos de Selassi.
     Marley , a despeito da franqueza com que retrata o personagem, um documentrio oficial. Seus produtores so Chris Blackwell, ex-presidente da Island, companhia que em 1973 lanou Bob Marley para o mundo, e Ziggy Marley, o filho mais velho do cantor, cuja carreira se resume a clonar a performance do pai nos palcos. Alguns temas delicados so contornados: no se fala da insistncia com que Blackwell buscou separar Marley de Peter Tosh e Bunny Livingston, seus parceiros na banda Wailers. Tampouco se menciona a encarniada disputa familiar pela herana de Marley, que morreu aos 36 anos, de cncer, sem deixar testamento. Nem por isso este  um documentrio chapa-branca. Alm do fraco de Marley por ditadores africanos, Macdonald examina suas difceis relaes familiares: nunca foi um pai amoroso e, depois do sucesso, humilhou a mulher, Rita, com sucessivos casos  no depoimento mais tenso do filme, Cedella, filha do cantor, diz que jamais permitiria que um homem a tratasse como seu pai tratou sua me. Desde sempre em contradio com a vida do compositor, a mensagem de paz e amor de Bob Marley perdeu-se depois de sua morte, quando o reggae jamaicano ficou mais agressivo. Hoje, o cenrio musical da ilha foi tomado por rappers insolentes. Bob Marley, o msico, faz falta. O idelogo, no.


6. VEJA RECOMENDA
LIVROS
MAGNUM  CONTATOS, DE KRISTEN LUBBEN (TRADUO DE JORIO DAUSTER; INSTITUTO MOREIRA SALLES; 508 PGINAS; 190 REAIS)
 Com a experincia de ter registrado a construo do Muro de Berlim, em 1961, o fotgrafo francs Raymond Depardon cobriu a sua queda, em 1989. A foto mais emblemtica registrada por sua Leica e estampada na capa dos jornais Financial Times e Le Monde mostra um rapaz que, montado sobre o infame muro, d um grito rebelde. Essa  uma das 435 fotos reunidas em Magnum  Contatos, seleo do trabalho de 69 fotgrafos  incluindo mestres como Robert Capa (1913-1954) e Henri Cartier-Bresson (1908-2004)  para a agncia que se tornou um centro de excelncia em fotojornalismo. O livro traz os depoimentos dos fotgrafos e as imagens impressas nas folhas de contato, nas quais se reproduzem todos os negativos, para edio e escolha da melhor imagem. Organizado cronologicamente desde a dcada de 1930, o livro expe grandes momentos histricos, como os jovens flagrados indiferentes  queda das torres gmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001, ou o difcil desembarque das tropas americanas na Praia de Omaha, na Frana, no dia D, em 1944.

UM CHINS DE BICICLETA, DE ARIEL MAGNUS (TRADUO DE MARCELO BARBO; BERTRAND BRASIL; 280 PGINAS; 34 REAIS)
 No fim de um casamento chins, o portenho Ramiro Valestra decepciona-se por no jogarem arroz nos noivos. Seria a oportunidade de ver os chineses praticarem um costume tpico seu que foi adotado pelo Ocidente  o equivalente, diz ele, a ver um brasileiro sambar, se isso no nos provocasse essa mistura doentia de respeito e rancor. Humorista anrquico, o argentino Ariel Magnus brinca, neste romance, com diversos esteretipos culturais, especialmente aqueles ligados aos argentinos, aos chineses e aos judeus. Magnus, alis, tem conhecimento de primeira mo sobre misturas e conflitos entre culturas: judeu argentino e neto de um sobrevivente de Auschwitz, viveu muito tempo na Alemanha, onde estudou filosofia. Ganhador do prmio La Otra Orilla de 2007, Um Chins de Bicicleta tem incio quando Li, um imigrante chins acusado de incendiar lojas em Buenos Aires, sequestra Ramiro, um tcnico em informtica, para fugir do tribunal em que est sendo julgado. Ramiro  ento arrastado para o bairro chins, onde faz uma estranha e engraada imerso na cultura dos compatriotas de Li.

BLU-RAY
NADA DE NOVO NO FRONT (ALL QIET ON THE WESTERN FRONT, ESTADOS UNIDOS, 1930. UNIVERSAL)
 Oito dcadas, no cinema, so o equivalente a milhes de anos na escala geolgica  e  tanto mais assombroso, portanto, que este filme dirigido em 1930 por Lewis Milestone, com base no best-seller publicado em 1928 por Erich Maria Remarque, permanea to monumental que no  preciso ter o olhar treinado para notar o herosmo dos seus feitos tcnicos e artsticos. Jovens alemes, insuflados pelo patriotismo, alistam-se assim que irrompe a I Guerra; na caserna, demoram a entender que a ordem da vida deles est subvertida para sempre; e so ento jogados na lama, no frio e nas exploses das trincheiras, num desespero que, de to incessante, se torna curiosamente montono. E, enquanto isso, Milestone faz viagens miraculosas com sua cmera, fotografa os protagonistas em enquadramentos que ressaltam ao mximo sua expressividade e at alterna a captao de som entre espaos internos e externos com uma percia que, neste momento, ainda chamaria ateno (o cinema falado estava na sua infncia, tanto que uma cpia do filme em verso muda acompanha esta edio gloriosamente restaurada). Um colosso.

DISCO
GLAD RAG DOLL. DIANA KRALL (UNIVERSAL)
 tima cantora e pianista, a canadense Diana Krall parecia presa a um determinado local e perodo  o Rio de Janeiro dos anos 60, de onde a bossa nova comeou a ser exportada para o resto do mundo. Por melhores que fossem suas verses para os standards de Tom Jobim e afins, ficava a impresso de que a cantora estava estagnada. Em Glad Rag Doll, ela finalmente sai de sua zona de conforto. A produo  de T-Bone Burnett, que revigorou a carreira do cantor Robert Plant e a do bluesman B.B. King. Diana d um descanso para a bossa e se entrega s composies americanas das dcadas de 20 e 30. Seu desempenho vocal revela-se mais sensual que de costume  como se pode perceber em Just Like a Butterfly Thats Caught in the Rain, na qual o guitarrista Marc Ribot troca seu instrumento habitual por um uquelele. A afinada parceria de Diana e Ribot, brao direito do produtor Burnett, se repete na faixa-ttulo do disco. Lonely Avenue e Im a Little Mixed Up comprovam essa versatilidade insuspeita. A primeira  um blues, que Diana canta com dose extra de vontade. Na segunda cano, seu piano reverbera em uma inesperada levada roqueira.

CINEMA
HISTERIA (HYSTERIA, INGLATERRA/FRANA/ALEMANHA, 2011. J EM CARTAZ)
 Na Inglaterra vitoriana, alguns mdicos tratavam as mulheres diagnosticadas com histeria por meio de uma tcnica revolucionria: a manipulao da vulva, que levava a um paroxismo e aliviava assim sintomas como depresso, ansiedade, frigidez, ninfomania etc. Em vocabulrio corrente, eles estavam na verdade masturbando suas pacientes (mas com muito decoro, por trs de uma cortininha) e conduzindo-as ao orgasmo. No filme da diretora Tanya Wexler, essa bizarrice cientfica (e vale dizer que os termos histeria, frigidez e ninfomania h muito foram banidos da medicina) ganha um vis gracioso por meio da figura do jovem doutor Mortimer Granville (Hugh Dancy), que, empregado por um veterano do ramo para dar-lhe, digamos, uma mozinha, chega a ter cibras, tal o xito do consultrio. Com a ajuda de um amigo interessado nos milagres da eletricidade, ele inventa ento um aparelho fantstico  o vibrador. O que, alis,  fato: Joseph Mortimer Granville patenteou o primeiro vibrador eletromecnico no incio dos anos 1880 (havia uma verso a vapor, no muito prtica), iniciando uma histria de sucesso inqualificvel.


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
3. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
6. A Sombra da Serpente  Rick Riordan. INTRNSECA 
7. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
8. a Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
9. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
10.   A Tormenta de Espadas  George R.R. Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
3. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD
4. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA 
5. Marighella  O Guerreiro que Incentiou o Mundo.  Mrio Magalhes. COMPANHIA DAS LETRAS
6. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
7. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
8. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
9. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
10. One Direction  Biografia  Danny White. BEST SELLER

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
3. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
4. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Marins. GENTE 
5. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Quem Pensa Enriquece  James Hunter. SEXTANTE
8. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
9. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
10. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  QUEM PERDE SAI DA FRENTE
     Uma das virtudes da democracia americana  o gatilho que manda para a aposentadoria os aspirantes a presidente derrotados nas urnas. Nesta eleio, estava em jogo quem ganhava e quem ia para o asilo dos aposentados. Obama ganhou e continua por mais quatro anos: Romney vai para o asilo. Tem sido sempre assim. Nos Estados Unidos tem fila, e ela  respeitada. Quem perde eleio sai da frente, e abre vaga para a prxima safra de presidenciveis. Graas a esse ritual, os dois grandes partidos tm seus quadros permanentemente renovados. Evita-se o fenmeno do entupimento no topo que, no Brasil,  causa de envelhecimento, desgaste e eventualmente morte dos partidos.
     O asilo abriga numerosa populao. Jimmy Carter perdeu a reeleio para Ronald Reagan, em 1980, e sobrou-lhe como consolo continuar, em nome de entidades privadas, sua digna e profcua campanha pelos direitos humanos ao redor do mundo. No h donos, nos partidos americanos. Mesmo quem j foi presidente, como Carter, uma vez destronado, no tem mais vez nos quadros competitivos do partido. Os democratas Walter Mondale e Michael Dukakis perderam as eleies seguintes 1984 e 1988  para os republicanos Reagan e George Bush (o primeiro) e adeus. Mondale ainda foi agraciado, na presidncia de Bill Clinton, com o cargo de embaixador no Japo: a Dukakis coube contentar-se com atividades na empresa privada e no magistrio. O primeiro Bush perdeu a reeleio para Clinton e passou  domstica funo de pai de um futuro presidente. Dos derrotados seguintes, o republicano Bob Dole foi para a empresa privada e o democrata Al Gore virou profeta do meio ambiente, enquanto os senadores John Kerry (democrata) e John McCain (republicano) pelo menos tiveram a sorte de continuar no Senado.
     Nem sempre foi assim. O republicano Richard Nixon perdeu a eleio para John Kennedy, em 1960, e ganhou uma segunda chance em 1968, quando se elegeu. De l para c, firmou-se, nos dois partidos, a regra no escrita da chance nica. O arejamento dos partidos se completa com o dispositivo constitucional que probe mais de uma reeleio, mandando para a compulsria o presidente que cumpriu dois mandatos. Bill Clinton tinha apenas 54 anos ao fim do segundo mandato. Estava em boa forma fsica e no auge da capacidade intelectual e da experincia. No entanto, no valia mais nada, em termos de pretenso presidencial. Restaram-lhe (coitado) o patrocnio dos estudos, pesquisas e benemerncias de seu milionrio instituto e as conferncias pelas quais cobra um milionrio cach.
     Obama ter 55 anos e, presumivelmente, a mesma boa forma fsica e intelectual ao fim do mandato que acaba de garantir. Cair igualmente na compulsria. Por isso, a nostalgia j pairava no ar, em seus ltimos dias de campanha. Sabia que se engajava nessa atividade pela ltima vez na vida. Ao contrrio, no Brasil, o presidente que deixa o cargo bem avaliado converte-se em fantasma a assombrar os demais pretendentes com a sempre presente ameaa da volta.  o que ocorre hoje com Lula, e o que ocorreu no passado com Getlio e com JK.
O gatilho das aposentadorias  um dos fatores da vitalidade desse primordial aspecto da democracia americana que  a eleio presidencial. Pouco se fala nele, mas, somado ao bipartidarismo e s eleies primrias, constitui-se no segredo do sucesso. Como  da tradio anglo-sax, resulta da conjuno entre a lei e o costume. A Constituio faz sua parte proibindo mais que dois mandatos ao presidente; o costume faz o resto, remetendo para a aposentadoria os pretendentes malsucedidos nas umas. No Brasil, do as cartas as figuras do lder populista, do cacique ou da prima-dona dos partidos. So, todos, tipos sem prazo de validade. Conspiram por isso contra a renovao e, em consequncia, contra a sade da instituio partido poltico. E tudo o que conspira contra a instituio partido poltico conspira contra a democracia.
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     As musas das letras clssicas falharam miseravelmente ao colunista, no ltimo texto.  verba volant, no verbi volent, estpido! E  quod non est in actis non est in mundo, e no mundus. H ainda gente com o latim em dia no Brasil. E vigilantes. Eles se apressaram a apresentar as correes que ficam agora registradas.


